segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

KARL POPPER: um filósofo da ciência.



        VIDA E OBRA: Karl Raimund Popper (1902 – 1994), nascido em Viena (Áustria), de família judaica. Teve várias experiências intelectuais: música, física, política, psicologia e pedagogia. Popper concluiu seu PhD em Viena em 1929. Sua primeira obra “A lógica da descoberta científica”, esboçou suas ideias sobre o método científico, desenvolvidas depois em “Conjecturas e refutações”. Por ser judeu, em 1937, diante da iminente anexação da Áustria pela Alemanha nazista, emigrou para a Nova Zelândia. Durante a guerra escreveu “A Sociedade aberta e seus inimigos”, uma defesa da democracia liberal através de uma crítica da filosofia de Platão, Hegel e Marx. Após o conflito, lecionou na London School of Economics, tornando-se professor em 1949. Em “O eu e seu cérebro”, escrito com John Eccles, defende uma forma de interacionismo mente-corpo. Ficou mais conhecido como filósofo da ciência e por suas críticas das filosofias políticas utópicas. Afirma que a ciência não avança fazendo generalizações a partir de observações, mas fazendo conjecturas ousadas que devem ser testadas. É a verificabilidade que dá poder a uma teoria científica.


           DEMARCAÇÃO CIENTÍFICA: foi Popper quem criou a expressão "problema da demarcação” para se referir ao problema de se encontrar um critério que permitisse distinguir as ciências empíricas, por um lado, da matemática e da lógica, entendidos como sistemas metafísicos, por outro. Apesar de Popper se referir à matemática e à lógica, outros autores preocupam-se em distinguir a ciência da metafísica e da pseudociência.
O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo. Os filósofos da ciência foram propondo vários critérios, incluindo o de que a ciência, diferentemente da não-ciência, 1) é empírica, 2) procura certezas, 3) procede utilizando um método científico, 4) descreve o mundo observável, não um mundo não observável e 5) é cumulativa e progride.
Alguns filósofos, incluindo Popper, colocam esta questão/problema, movidos por um desejo intelectual de clarificar esta distinção. Os positivistas lógicos tinham também o objetivo de deitar por terra as disciplinas não científicas, tais como a metafísica e a teologia, as quais parecem descrever o mundo físico, mas que, por serem inverificáveis, são (alegam os positivistas lógicos) desprovidas de sentido.


       FALIBILISMO: para Popper, o positivismo, mais do que uma filosofia precisa, foi a matriz dos dogmatismos e das ortodoxias que, em todos os domínios, ele procurou combater. No cerne dessa matriz, Popper descobriu uma concepção secular: a que identifica a ciência como uma atividade estritamente indutiva que, a partir de umas tantas observações e experiências, avança formulando leis sobre fenômenos, procedendo à verificação e generalização. Foi esta concepção que a ingênua epistemologia da Modernidade consagrou como paradigmática no âmbito das ciências naturais e, depois, pretendeu exportar para o conjunto dos saberes e disciplinas. O positivismo de Comte foi, no século XIX, um primeiro – e frustrado – lance desta ambição imperial, que o empirismo lógico do Círculo de Viena, voltou nos anos vinte e trinta do século XX, a assumir, então através de uma perspectiva que, combinando os clássicos preceitos positivistas com a inspiração do modelo de análise lógica proposto por Russell (1872 – 1970), deveria permitir não só uma organizada unificação da ciência como a sua blindagem em relação às suas tentações metafísicas. É desta posição que decorrem as famosas distinções entre frases «com» e «sem» sentido, que propiciam um breve, mas intenso, momento de frenesi epistemológico nos anos trinta. Para esta brevidade contribuiu decisivamente Popper, ao recuperar uma esquecida boa ideia de Hume para contestar a imagem da ciência que se encontrava na base das pretensões do positivismo e sustentar que a ciência não é de ordem indutiva, mas conjectural – e que, por isso, se deve trocar as exigências da verificabilidade pelas da falsificabilidade. Tal como já fizera David Hume (1711 – 1776), Popper analisa os fundamentos lógicos do procedimento indutivo concluindo que, por maior que seja o número de observações particulares, não há justificação racional para a sua generalização a todos os casos. Como diz Popper, mesmo que se tenham observado milhares de cisnes brancos, nada nos autoriza a afirmar que «todos os cisnes são brancos» e bastará uma única observação de um único cisne negro para refutar aquela proposição. As inferências indutivas não conferem ao conhecimento nem necessidade lógica nem validade universal, pelo que, para Popper, a ciência não é mais do que um conhecimento conjectural. Em vez de indução, Popper propõe que se fale em conjecturação e, em vez de verificação, em falsificabilidade. A ideia é que a ciência, como conhecimento em geral, é uma atividade que se caracteriza, sobretudo, pela ousadia imaginativa das suas hipóteses e que estas se devem sempre formular de modo a exporem-se à experiência, que tanto as pode afastar, falsificando-as, como confirmar, corroborando-as. Deste modo, quanto mais uma hipótese afirmar sobre o mundo (isto é, quanto maior for o seu conteúdo empírico) mais se arrisca a ser falsificada; pelo que, se não o for, os seus poderes heurísticos ficam bastante robustecidos. E a conjugação desta exigência de falsificabilidade com a valorização da atividade de conjecturação permite ainda bloquear a ambição positivista de instituir critérios de sentido que excluam ou marginalizam quaisquer domínios de saber, uma vez que o sentido aparece sempre, para Popper, solidário da problematicidade que germina, sem exceção, por todas as áreas do conhecimento e da ação dos homens. Esta perspectiva contém apreciáveis consequências num domínio geralmente negligenciado pelos filósofos da ciência, o da política.

          A QUESTÃO DA INDUÇÃO: Popper faz uma crítica ao problema lógico e psicológico da teoria da indução de Hume. Vejamos agora algumas conclusões as quais Popper chegou após o exame do problema da indução.
Primeiro: A indução – isto é, a inferência baseada em grande número de observações para em seguida generalizar– é um mito: não é um fato psicológico, um fato da vida corrente ou um procedimento científico.
Segundo: O método real da ciência emprega conjecturas e salta para conclusões genéricas, às vezes depois de uma única observação.
Terceiro: A observação e a experimentação repetidas funcionam na ciência como testes de nossas conjecturas ou hipóteses – isto é, como tentativas de refutação.
Quarto: A crença errônea na indução é fortalecida pela necessidade de termos um critério de demarcação que – conforme aceito tradicionalmente, e equivocadamente – só o método indutivo poderia fornecer.
Quinto: A concepção de tal método indutivo, como critério de verificabilidade, implica uma demarcação defeituosa.
Sexto: Se afirmarmos que a indução nos leva a teorias prováveis (e não certas) nada do que precede se altera fundamentalmente.
            Popper resolveu de certa forma, o problema sem abdicar da racionalidade, do empirismo e dos procedimentos científicos. A questão da indução é fundamental, pois, ela reporta à indagação se agimos ou não de acordo com a razão. Hume não acredita na capacidade da razão humana em relação ao conhecimento indutivo, já Popper defende a racionalidade e a considera o fundamento do saber, destacando a indução genuína como sendo um raciocínio hipotético (conjectural). A análise popperiana mostrou que existe um conflito entre os problemas lógico e psicológico da indução instaurados por Hume. Este fato acarretou um ceticismo e um certo irracionalismo humeano, uma vez que o filósofo reduz a razão a um papel menor no entendimento humano. Ao contrário de Hume, Popper faz um apelo à racionalidade e ao emprego do método crítico-hipotético (conjectural) como sendo a base da verdadeira indução e do conhecimento científico, solucionando a problemática instaurada por Hume.
            Diante de tudo isso, percebe-se a importância das conclusões chegadas por esse filósofo, as quais não se reduzem ao estabelecimento do critério de demarcação ou da proposta do método crítico-conjectural como solução do problema da indução. O pensamento popperiano é muito rico, inclusive do ponto de vista político, que não enfatizamos neste trabalho, mas que devemos explorá-lo no atual contexto da realidade brasileira.


             REFERÊNCIAS

ARANHA, Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 4 ed. São Paulo: Moderna, 2009.

CHAUI, Marilena. Iniciação à Filosofia. São Paulo: Ática, 2009.

FONTANA, Júlio. A Solução de Karl Popper para o problema da indução. In: Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 8. 2006.

HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

LAW, Stephen. Guia Ilustrado Zahar de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

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