Na mitologia grega as divindades
Moiras (significa destino) são três irmãs que dividem entre si as seguintes
funções: Cloto – aquela que fia. Tece os fios dos destinos dos humanos;
Láquesis, que significa sorte – põe o fio no fuso; Átropos, que significa “a
inflexível” – corta impiedosamente o fio que mede a vida de cada mortal.
Já na tragédia Édipo-Rei de
Sófocles, Laio senhor de Tebas soube pelo oráculo que seu filho recém-nascido
iria assassiná-lo e desposar a própria mãe. Laio antecipa-se ao destino e manda
matar o filho, mas suas ordens não são obedecidas e a criança cresce saudável
em lugar distante. Quando adulto Édipo consulta o oráculo e, ficando ciente do
seu destino foge da casa daqueles que acreditara serem seus pais verdadeiros, a
fim de evitar o cumprimento de tal destino. Na fuga desentende-se com um
desconhecido até ao ponto de matá-lo. Esse estranho era, na verdade seu pai. Ao
entrar em Tebas, depois de elucidar o enigma da esfinge, é aclamado rei e
casa-se com Jocasta, viúva de Laio, ignorando ser sua mãe. E assim cumpriu-se o
destino. Após longos anos a cidade de Tebas volta a ser acometida por uma
terrível peste, a qual seria desfeita quando fosse elucidada a morte de Laio.
Essa busca levaria Édipo a esclarecer o enigma de seu próprio nascimento,
elucidando sua história e identidade. Ao final Jocasta suicida-se e Édipo se
cega. Apesar de vencer a irracionalidade, essa tragédia revela uma contradição
entre liberdade e determinismo.
Percebe-se nessa narrativa que as
figuras lendárias apresentam-se humanizadas, questionando o destino, emergindo
a força da vontade que se recusa a sucumbir aos desígnios divinos. Essas
narrativas da mitologia grega fazem-nos refletir sobre o seguinte: somos livres
ou somos determinados? É possível conciliar liberdade e determinismo?
No mundo grego após a superação da
visão mítica pelo surgimento do pensamento racional, o homem passou a ser
considerado livre, cosmopolita, capaz de tomar decisões que pudessem melhorar
sua vida principalmente no campo da política.
Sócrates, Platão e Aristóteles
desenvolveram um pensamento ético intimamente vinculado à vida livre na polis,
onde a vivência das virtudes dependeria do conhecimento que os cidadãos possuíssem
delas e, o mal seria resultado da ignorância.
Em termos práticos, na Grécia,
apenas no âmbito da polis (da política) fala-se em liberdade, compartilhada
entre os iguais, ou seja, entre os cidadãos, uma vez que mulheres, crianças e
escravos estavam sob a tutela do pai e, este tinha poderes incontestes sobre
aqueles.
Na Idade Média, o conceito de
liberdade passou por reformulação ditada pelo cristianismo, que a denomina de
livre-arbítrio. Em Santo Agostinho, embora o homem tenha a razão como faculdade
cognoscitiva, é a vontade quem decide e escolhe, caracterizando o voluntarismo
agostiniano, em contraposição ao racionalismo socrático. Mas, para o
cristianismo o poder e a graça divina auxilia o homem a escolher o bem e
rejeitar o mal. Na verdade o homem teria apenas uma possibilidade: está
contrito com Deus ou afastar-se Dele.
Com o desenvolvimento das ciências
modernas que veem o mundo dentro dos princípios do determinismo, ou seja, onde
tudo que existe tem sua causa e, posteriormente o advento das ciências humanas,
que erigem suas teorias dentro dos paradigmas das ditas ciências da natureza,
cresce cada vez mais os argumentos de que a liberdade não existe, sendo apenas
uma palavra que serve para nos enganar. Os adeptos do determinismo creem que é
impossível o exercício da liberdade porque somos limitados tanto por fatores
internos (limitações intelectuais, deficiências mentais, congênitas etc.),
quanto por fatores externos (limitações impostas pelo meio sociocultural).
Por outro lado, já no século XX,
filósofos da corrente fenomenológica abordaram a questão da liberdade na
tentativa de superar a antinomia determinismo-liberdade. Para eles o problema
da liberdade não se situa no âmbito de uma liberdade abstrata, teórica, nem
conforme a perspectiva racionalista, que enaltece apenas o trabalho da
consciência, mas sim a partir da liberdade do indivíduo situado num contexto
concreto, sendo capaz de relacionar-se com o mundo e consigo mesmo.
Os defensores da relação dialética
entre determinismo e liberdade, entendem que o homem é um ser permeado de um
conjunto de situações concretas, condicionantes, determinados por
características psicológicas, como pertencentes a uma família, a um grupo
sociocultural, situados num tempo e espaço que não escolhido. É o que
denominamos facticidade da vida, porém, o homem não está no mundo como as
coisas estão. Ele possui a característica da transcendência, que é o movimento,
a força que ele faz para ir além desses condicionantes, não para negá-los, mas
para dar-lhes um sentido. Em outras palavras, o homem é um ser que é
condicionado pelo contexto, porém, é nesse contexto e em situações concretas da
vida que ele pode escolher. Neste sentido, não importa o que fizeram de nós,
mas o que nós faremos com aquilo que fizeram de nós. Nisto consiste a dimensão
da liberdade.
Na visão sartriana isso é possível
porque ele inverte um pensamento da filosofia antiga, que considerava o ser
humano como possuidor de uma essência, uma natureza universal a partir da qual
o homem construiria a sua existência. Ao contrário, Sartre entende que o homem
primeiramente existe, descobre-se no mundo e projeta-se na construção do seu
ser. O homem, a princípio, não seria nada. Só depois será alguma coisa tal como
a si própria se fizer.
Entretanto, não se pode falar de
liberdade sem mencionar o seu correspondente direto que é a responsabilidade,
isto é, a capacidade do homem responder por seus próprios atos e escolhas. Uma
vez que o homem pode-se fazer, pode construir sua identidade, sua essência, ele
é livre, mas também terá de arcar com as consequências de suas escolhas.
Na atualidade, não se pode conceber
a liberdade fora da comunidade. Nossas relações não são de contiguidade, mas de
intersubjetividade. Isso significa que não estamos apenas um do lado do outro,
mas somos feitos uns para os outros. Nossa vida moral só é possível baseada em
ações de cooperação, de reciprocidade e de responsabilidade. Nesse sentido, o
outro não é o limite da liberdade, mas uma condição para atingi-la.
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