domingo, 2 de fevereiro de 2014

A LIBERDADE EXISTE OU É UMA PALAVRA INVENTADA PARA NOS ENGANAR?

            Na mitologia grega as divindades Moiras (significa destino) são três irmãs que dividem entre si as seguintes funções: Cloto – aquela que fia. Tece os fios dos destinos dos humanos; Láquesis, que significa sorte – põe o fio no fuso; Átropos, que significa “a inflexível” – corta impiedosamente o fio que mede a vida de cada mortal.
            Já na tragédia Édipo-Rei de Sófocles, Laio senhor de Tebas soube pelo oráculo que seu filho recém-nascido iria assassiná-lo e desposar a própria mãe. Laio antecipa-se ao destino e manda matar o filho, mas suas ordens não são obedecidas e a criança cresce saudável em lugar distante. Quando adulto Édipo consulta o oráculo e, ficando ciente do seu destino foge da casa daqueles que acreditara serem seus pais verdadeiros, a fim de evitar o cumprimento de tal destino. Na fuga desentende-se com um desconhecido até ao ponto de matá-lo. Esse estranho era, na verdade seu pai. Ao entrar em Tebas, depois de elucidar o enigma da esfinge, é aclamado rei e casa-se com Jocasta, viúva de Laio, ignorando ser sua mãe. E assim cumpriu-se o destino. Após longos anos a cidade de Tebas volta a ser acometida por uma terrível peste, a qual seria desfeita quando fosse elucidada a morte de Laio. Essa busca levaria Édipo a esclarecer o enigma de seu próprio nascimento, elucidando sua história e identidade. Ao final Jocasta suicida-se e Édipo se cega. Apesar de vencer a irracionalidade, essa tragédia revela uma contradição entre liberdade e determinismo.
            Percebe-se nessa narrativa que as figuras lendárias apresentam-se humanizadas, questionando o destino, emergindo a força da vontade que se recusa a sucumbir aos desígnios divinos. Essas narrativas da mitologia grega fazem-nos refletir sobre o seguinte: somos livres ou somos determinados? É possível conciliar liberdade e determinismo?
            No mundo grego após a superação da visão mítica pelo surgimento do pensamento racional, o homem passou a ser considerado livre, cosmopolita, capaz de tomar decisões que pudessem melhorar sua vida principalmente no campo da política.
            Sócrates, Platão e Aristóteles desenvolveram um pensamento ético intimamente vinculado à vida livre na polis, onde a vivência das virtudes dependeria do conhecimento que os cidadãos possuíssem delas e, o mal seria resultado da ignorância.
            Em termos práticos, na Grécia, apenas no âmbito da polis (da política) fala-se em liberdade, compartilhada entre os iguais, ou seja, entre os cidadãos, uma vez que mulheres, crianças e escravos estavam sob a tutela do pai e, este tinha poderes incontestes sobre aqueles.
            Na Idade Média, o conceito de liberdade passou por reformulação ditada pelo cristianismo, que a denomina de livre-arbítrio. Em Santo Agostinho, embora o homem tenha a razão como faculdade cognoscitiva, é a vontade quem decide e escolhe, caracterizando o voluntarismo agostiniano, em contraposição ao racionalismo socrático. Mas, para o cristianismo o poder e a graça divina auxilia o homem a escolher o bem e rejeitar o mal. Na verdade o homem teria apenas uma possibilidade: está contrito com Deus ou afastar-se Dele.
            Com o desenvolvimento das ciências modernas que veem o mundo dentro dos princípios do determinismo, ou seja, onde tudo que existe tem sua causa e, posteriormente o advento das ciências humanas, que erigem suas teorias dentro dos paradigmas das ditas ciências da natureza, cresce cada vez mais os argumentos de que a liberdade não existe, sendo apenas uma palavra que serve para nos enganar. Os adeptos do determinismo creem que é impossível o exercício da liberdade porque somos limitados tanto por fatores internos (limitações intelectuais, deficiências mentais, congênitas etc.), quanto por fatores externos (limitações impostas pelo meio sociocultural).
            Por outro lado, já no século XX, filósofos da corrente fenomenológica abordaram a questão da liberdade na tentativa de superar a antinomia determinismo-liberdade. Para eles o problema da liberdade não se situa no âmbito de uma liberdade abstrata, teórica, nem conforme a perspectiva racionalista, que enaltece apenas o trabalho da consciência, mas sim a partir da liberdade do indivíduo situado num contexto concreto, sendo capaz de relacionar-se com o mundo e consigo mesmo.
            Os defensores da relação dialética entre determinismo e liberdade, entendem que o homem é um ser permeado de um conjunto de situações concretas, condicionantes, determinados por características psicológicas, como pertencentes a uma família, a um grupo sociocultural, situados num tempo e espaço que não escolhido. É o que denominamos facticidade da vida, porém, o homem não está no mundo como as coisas estão. Ele possui a característica da transcendência, que é o movimento, a força que ele faz para ir além desses condicionantes, não para negá-los, mas para dar-lhes um sentido. Em outras palavras, o homem é um ser que é condicionado pelo contexto, porém, é nesse contexto e em situações concretas da vida que ele pode escolher. Neste sentido, não importa o que fizeram de nós, mas o que nós faremos com aquilo que fizeram de nós. Nisto consiste a dimensão da liberdade.
            Na visão sartriana isso é possível porque ele inverte um pensamento da filosofia antiga, que considerava o ser humano como possuidor de uma essência, uma natureza universal a partir da qual o homem construiria a sua existência. Ao contrário, Sartre entende que o homem primeiramente existe, descobre-se no mundo e projeta-se na construção do seu ser. O homem, a princípio, não seria nada. Só depois será alguma coisa tal como a si própria se fizer.
            Entretanto, não se pode falar de liberdade sem mencionar o seu correspondente direto que é a responsabilidade, isto é, a capacidade do homem responder por seus próprios atos e escolhas. Uma vez que o homem pode-se fazer, pode construir sua identidade, sua essência, ele é livre, mas também terá de arcar com as consequências de suas escolhas.
            Na atualidade, não se pode conceber a liberdade fora da comunidade. Nossas relações não são de contiguidade, mas de intersubjetividade. Isso significa que não estamos apenas um do lado do outro, mas somos feitos uns para os outros. Nossa vida moral só é possível baseada em ações de cooperação, de reciprocidade e de responsabilidade. Nesse sentido, o outro não é o limite da liberdade, mas uma condição para atingi-la.

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